O Habib’s construiu uma trajetória marcada pela combinação de preços acessíveis, expansão acelerada e um modelo de franquias que ajudou a transformar a marca em uma das maiores redes de alimentação do país.
No entanto, o Grupo Gennius, controlador do Habib’s, Ragazzo e Tendall Grill, atravessa um dos momentos mais delicados de sua história ao recorrer à Justiça para obter proteção temporária contra a cobrança de credores diante de um passivo de aproximadamente R$ 312 milhões.
Embora o cenário desperte dúvidas entre investidores, consumidores e franqueados, a situação não significa que as operações da rede tenham sido interrompidas.
Pelo contrário, a empresa afirma que todas as unidades continuam funcionando normalmente enquanto busca negociar seus compromissos financeiros.
O caso, entretanto, evidencia os desafios enfrentados por grandes redes do setor de alimentação em um ambiente econômico marcado por juros elevados, aumento dos custos operacionais e mudanças no comportamento do consumidor.
Como o Habib’s se tornou uma potência no franchising
Fundado em 1988 por Alberto Saraiva, o Habib’s ganhou notoriedade ao oferecer produtos de baixo custo em larga escala.
A estratégia baseada em eficiência operacional, produção centralizada e forte investimento em marketing permitiu que a marca conquistasse consumidores de diferentes perfis, especialmente das classes média e popular.
A expansão por franquias teve papel decisivo nesse crescimento.
Ao longo dos anos, o grupo também incorporou outras operações, como o Ragazzo e a churrascaria Tendall Grill, formando um dos maiores conglomerados brasileiros de food service.
Durante muito tempo, campanhas promocionais, como a venda de esfihas por valores simbólicos, ajudaram a consolidar a identidade da empresa e a ampliar sua presença nacional.
O que motivou a atual crise no Habib’s
A situação enfrentada pelo Grupo Gennius não pode ser atribuída a um único fator. Especialistas apontam que a crise resulta da combinação de elementos econômicos, financeiros e estruturais que passaram a pressionar o setor de alimentação nos últimos anos.
Um dos principais desafios é o elevado custo do dinheiro.
Taxas de juros mais altas aumentam o peso das dívidas e dificultam o acesso a novas linhas de crédito, especialmente para empresas altamente capitalizadas em expansão.
Outro fator relevante é a inflação sobre matérias-primas.
Produtos como trigo, carne, óleo e outros insumos essenciais para a operação sofreram oscilações importantes, reduzindo as margens de empresas cuja estratégia depende de preços muito competitivos.
Ao mesmo tempo, o avanço das plataformas de delivery modificou profundamente o mercado.
Embora esses aplicativos ampliem o alcance das redes de alimentação, suas taxas reduzem a rentabilidade das vendas, exigindo um equilíbrio delicado entre volume comercializado e margem de lucro.
Especialistas do setor também destacam que promoções constantes deixaram de ser um diferencial exclusivo, já que concorrentes passaram a utilizar estratégias semelhantes para atrair consumidores.
A mudança no comportamento do consumidor
Outro aspecto importante para compreender a crise no Habib’s é a transformação do perfil de consumo das famílias brasileiras.
O público tradicional da rede é composto, em grande parte, por consumidores bastante sensíveis ao preço. Em períodos de inflação elevada e maior comprometimento da renda familiar, esse segmento tende a reduzir gastos com alimentação fora de casa ou migrar para alternativas ainda mais econômicas.
Dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio (CNC), mostram que 81,6% das famílias brasileiras estavam endividadas em junho de 2026, cenário que limita o consumo discricionário e aumenta a competição entre empresas que disputam o mesmo público.
Além disso, o mercado de alimentação tornou-se muito mais pulverizado. Redes nacionais, operadores regionais, hamburguerias artesanais, pizzarias, dark kitchens e restaurantes independentes disputam espaço em um ambiente onde o consumidor encontra inúmeras opções com poucos cliques.
O que significa a proteção judicial obtida pelo Grupo Gennius
Um dos pontos que geraram maior repercussão foi a decisão judicial que concedeu ao Grupo Gennius uma tutela cautelar para suspender temporariamente execuções e cobranças relacionadas às dívidas que podem integrar uma futura reorganização financeira.
Na prática, trata-se de um período destinado à negociação com credores, permitindo que a empresa tente reorganizar sua situação financeira sem sofrer bloqueios que possam comprometer imediatamente suas operações.
Essa medida não corresponde automaticamente a um processo de recuperação judicial, embora frequentemente seja utilizada como etapa anterior quando as negociações não alcançam um consenso.
Segundo o grupo, o objetivo é preservar a continuidade das atividades enquanto busca uma solução negociada para os passivos acumulados nos últimos anos.
Quais são os impactos para os franqueados
Em situações como essa, é natural que franqueados demonstrem preocupação. Entretanto, a proteção judicial concedida ao Grupo Gennius não significa, por si só, paralisação das operações nem encerramento das atividades das franquias.
As lojas permanecem em funcionamento e continuam atendendo normalmente, conforme informado pela empresa. Ainda assim, um cenário de reorganização financeira pode exigir maior atenção dos franqueados em relação ao abastecimento, suporte operacional, investimentos futuros e estratégias comerciais.
Para investidores interessados na marca, o momento reforça a importância da análise detalhada da Circular de Oferta de Franquia, também conhecida como COF, além da avaliação dos demonstrativos financeiros disponíveis, da conversa com franqueados e ex-franqueados e do apoio de profissionais especializados nas áreas jurídica, contábil e financeira antes de qualquer decisão de investimento.
Também é importante lembrar que indicadores como investimento inicial, faturamento e prazo de retorno variam conforme localização, perfil da unidade, capacidade de gestão, mercado atendido e estrutura operacional, não sendo possível generalizar resultados para toda a rede.
O que o mercado de franquias pode aprender com esse caso
A crise do Habib’s evidencia que mesmo marcas consolidadas estão sujeitas às mudanças do ambiente econômico.
Modelos de negócio construídos sobre margens reduzidas precisam de eficiência operacional constante para absorver oscilações nos custos. Ao mesmo tempo, a transformação digital acelerou a concorrência, tornando a fidelização do consumidor um desafio ainda maior.
Outro aprendizado relevante diz respeito ao equilíbrio financeiro. Crescimento acelerado, expansão territorial e investimentos em infraestrutura precisam caminhar ao lado de uma estrutura de capital capaz de enfrentar períodos prolongados de desaceleração econômica.
Para franqueadores, o episódio reforça a necessidade de revisão contínua dos modelos de operação, da política de preços e das estratégias de inovação.
Já para investidores, o caso demonstra que força de marca, tradição e capilaridade são atributos importantes, mas não eliminam a necessidade de análise da saúde financeira da empresa.
Conclusão
A crise no Habib’s representa um dos episódios mais relevantes do franchising brasileiro nos últimos anos.
O pedido de proteção judicial do Grupo Gennius ocorre em um contexto de juros elevados, pressão sobre custos, mudanças no comportamento do consumidor e aumento da concorrência no setor de alimentação.
Apesar das dificuldades financeiras, a empresa afirma que continua operando normalmente enquanto negocia seus passivos com credores.
O desfecho desse processo poderá influenciar não apenas o futuro da rede, mas também servir como referência para outras empresas do setor que enfrentam desafios semelhantes.
Mais do que acompanhar os desdobramentos da situação, o mercado pode utilizar esse caso como oportunidade para refletir sobre gestão financeira, adaptação às mudanças de consumo e sustentabilidade dos modelos de franquia em um ambiente econômico cada vez mais competitivo.